Casos de mulheres que enfrentaram mudanças no abdômen após a gravidez ajudam a esclarecer diferenças entre perda de peso, flacidez e diástase abdominal
A repercussão de relatos de mulheres conhecidas nas redes sociais sobre mudanças no corpo após a maternidade tem ajudado a trazer para o debate uma dúvida frequente nos consultórios: afinal, a abdominoplastia é uma cirurgia para emagrecer?
A resposta é não. A abdominoplastia é uma cirurgia de contorno corporal indicada principalmente para tratar excesso de pele, flacidez abdominal e, em casos selecionados, alterações da parede abdominal, como a separação dos músculos retos. O procedimento não substitui a perda de peso nem a adoção de hábitos saudáveis.
Um exemplo recente que ganhou visibilidade foi o da influenciadora Viih Tube. Após duas gestações e um processo de emagrecimento, ela contou publicamente que passou por abdominoplastia e outros procedimentos. Também relatou ter diástase abdominal, condição frequente após a gestação.
Para o cirurgião plástico Vidal Guerreiro, mestre em Cirurgia Plástica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o caso ajuda a diferenciar duas situações que muitas vezes são confundidas. “Existe uma expectativa de que a pessoa faça uma abdominoplastia e saia dela emagrecida, mas essa não é a proposta. Imagine uma mulher que teve filhos, emagreceu, voltou à rotina de exercícios e, mesmo assim, ficou com uma sobra de pele que não retrai ou com uma alteração importante da parede abdominal. É justamente esse tipo de situação que precisamos avaliar. A cirurgia entra para tratar aquilo que dieta e atividade física não conseguem corrigir”, explica.
Mesmo pessoas que estão dentro de uma faixa de peso adequada podem apresentar flacidez, excesso de pele ou alterações no contorno abdominal. Entre as causas estão gravidez, envelhecimento, grandes oscilações de peso, fatores hereditários e cirurgias anteriores.
Outro caso que chamou atenção foi o da empresária e influenciadora Bianca Andrade, a Boca Rosa, que revelou ter desenvolvido diástase depois da gravidez. Na época, ela chegou a ser alvo de comentários sobre a aparência da barriga e explicou publicamente que estava tratando a condição sem cirurgia.
Segundo Vidal, o exemplo é importante porque mostra que o diagnóstico de diástase, isoladamente, não significa indicação automática de abdominoplastia. “Nem toda mulher que teve filho vai precisar de abdominoplastia e nem toda diástase precisa ser operada. Às vezes, a paciente chega preocupada porque olha a barriga e acredita que só existe uma solução. Primeiro precisamos entender o que está causando aquela alteração, avaliar a musculatura, a pele, os sintomas e ouvir o que realmente incomoda aquela mulher. Só depois discutimos se existe indicação de cirurgia ou se outro tratamento faz mais sentido”, afirma.
A diástase abdominal ocorre quando há um afastamento dos músculos retos do abdômen, situação comum durante e após a gestação. A intensidade da alteração e suas repercussões variam entre as pacientes, por isso o tratamento deve ser individualizado.
Peso estável é parte do planejamento
Outro ponto importante é o momento escolhido para a cirurgia. Em vez de falar em um “peso ideal” único para todos, a avaliação considera o estado geral de saúde, o peso e sua estabilidade, além das expectativas em relação ao procedimento.
Pacientes que ainda pretendem perder uma quantidade significativa de peso podem ser orientados a concluir primeiro esse processo. O mesmo vale para mulheres que planejam uma nova gestação em curto prazo, já que tanto a gravidez quanto grandes oscilações de peso podem modificar novamente o abdômen e interferir no resultado da cirurgia.
“Uma pergunta que costumo fazer é: ‘Você ainda está no meio do seu processo de emagrecimento ou esse peso já é uma realidade para você?’. Isso muda bastante a conversa. Se a pessoa ainda pretende perder uma quantidade importante de peso, geralmente faz mais sentido chegar primeiro a uma condição estável. A cirurgia não deve ser vista como o começo do emagrecimento, mas como uma possibilidade de tratar alterações que permaneceram depois desse processo”, destaca Vidal.
O planejamento também precisa considerar condições de saúde, hábitos de vida, tabagismo, histórico cirúrgico e planos de gestação.
Para o especialista, reduzir a abdominoplastia à retirada de pele ou à mudança de medidas também é simplificar uma decisão que precisa ser analisada de maneira mais ampla. “Existe uma pessoa por trás daquela barriga, muitas vezes depois de duas ou três gestações ou de uma grande mudança de peso. É preciso entender essa história, saber o que incomoda e conversar com clareza sobre o que a cirurgia pode e o que ela não pode entregar.”
Vidal ressalta ainda que os relatos de figuras públicas podem ajudar a ampliar o acesso à informação, mas não devem servir como parâmetro para outras mulheres. “O corpo de uma influenciadora não deve virar referência para outra paciente. Duas mulheres podem ter passado por gestações semelhantes e apresentar necessidades completamente diferentes. O lado positivo dessas histórias é abrir espaço para falar sobre o assunto, esclarecer dúvidas e mostrar que a indicação de uma cirurgia precisa ser individual.”
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